• Anderson Martins

Coronavírus: "O Brasil está deixando passar uma oportunidade", diz Demógrafa

Atualizado: Jun 4

Em conversa com o biólogo Átila, a Profª de Demografia Marcia Castro lamenta a falta de liderança sólida no país para combater o coronavírus.

Marcia usa imagens de satélite, modelos matemáticos e outras ferramentas para estudar a transmissão de doenças.


Na terça-feira, 11 de maio, o biólogo e pesquisador Átila Iamarino realizou uma live no youtube com a Profª de Demografia e Chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard, Marcia Castro. Dentre vários pontos importantes mencionados na discussão, que vão além do conflito economia versus isolamento (confira o vídeo abaixo), a professora menciona que estamos deixando passar uma oportunidade com relação à prevenção e que o ferramental para isso já existe.


Ao ser questionada por Átila sobre quais medidas o Brasil deveria tomar, considerando a gritante desigualdade social e as diferenças regionais, Marcia pontuou e lamentou que o Brasil poderia estar usando os Agentes Comunitários de Saúde para promover o amparo à população e assim evitar o desenfreado aumento no número de contágios. A professora começa mencionando uma medida que está sendo implantada no Estado de Massachusetts, nos EUA. Os 'Detetives Covid', que são pessoas que rastreiam os contatos de quem testou positivo, quem foi internado ou teve contato com pessoas infectadas e assim tomam medidas de isolamento para esses indivíduos. Ao olhar para o Brasil, Marcia afirma que o país já possui esses 'Detetives', que no caso são os Agentes Comunitários de Saúde.

"Eles trabalham na comunidade onde eles moram, eles tem a confiança da população, eles sabem onde estão os idosos, pessoas com comorbidade de alto risco para a covid-19, sabem onde estão as áreas mais vulneráveis, que não possui acesso à água, por exemplo. E qual tem sido o papel dos agentes comunitários? Mínimo."

Lamento e crítica

Ela menciona que o protocolo emitido pelo Ministério da Saúde com relação ao papel da atenção básica basicamente foca processo clínico, como o atendimento na UBS (Unidade Básica de Saúde), mas não se diz nada sobre a ação dos agentes no campo, na comunidade.


"Ou seja, a prevenção não aparece nesse documento. Ou seja, o que a gente vê é a implementação desse protocolo se dando de uma maneira muito heterogênea. Algumas comunidades estão usando os agentes comunitários, mas isso depende da liderança local e da cidade ter recursos para utilizá-los, pois eles não receberam treinamento ou equipamento de segurança", diz Marcia.


E a crítica se finaliza lamentando a falta de liderança nacional, numa mensagem clara ao Governo Federal, que tem dificultado o trabalho de cooperação com os estados por meio do Ministério da Saúde e frequentemente discursado de maneira anti-científica através do Presidente da República. Além disso, mencionou como a dificuldade de um planejamento antecipado de combate ao coronavírus esteve atrelado a falta de investimentos na saúde causada pela PEC dos gastos públicos de 2016. "Outro ponto em relação a isso é que essa postura das lideranças do país, aliada ao subfinanciamento crônico do SUS dificultou qualquer planejamento antecipado. Se pegarmos desde 2016, quando tivemos o congelamento do orçamento por 20 anos, não só da saúde, a estimativa é que o Ministério da Saúde perdeu de 20 a 30 bilhões de reais, e isso é vital para ter o SUS financiando de maneira mais apropriada".


Otimismo: ainda temos tempo!


Embora a situação de enfrentamento da doença no país esteja difícil, a professora menciona que ainda está otimista com relação às ações futuras.


"Mas apesar de tudo isso, gosto de ser otimista. Ainda tem tempo. A gente está só no começo, e eu acho quase impossível imaginar como é que a gente pode implementar qualquer ação de relaxar o distanciamento social sem a ajuda dos agentes de saúde".


"Quer dizer, uma vez criadas as condições de segurança para os agentes trabalharem nas comunidades, eles são esses detetives. Eles podem rastrear os contatos, podem realizar busca ativa das pessoas que estão em grupos de risco: idosos, pessoas com comorbidades. Pode-se criar uma parceria público-privado para utilizar hoteis que estão vazios para abrigar temporariamente essas pessoas em risco ou pessoas que tiveram o contato com outros infectados e que não tem como praticar distanciamento social".


"Novamente, isso é uma maneira de você adaptar essas ações de distanciamento ou lockdown ao contexto brasileiro. A um contexto de desigualdade que não dá pra se esperar que todos vão conseguir fazer. "



Você poderá ver as competências do Agente Comunitário de Sáude acessando o documento da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB).






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